leite na fazenda

Barrar as importações pode aumentar o preço do leite na fazenda?

A decisão de suspender as importações de lácteos do Uruguai trás expectativas de recuperação dos preços do leite na fazenda por aqui. Será?

Mas barrar as importações uruguaias irá reverter a tendência de queda observada desde junho deste ano e elevar o preço do leite na fazenda?

O problema ao responder essa questão é que ela implica relações de causa e efeito que não são diretas, o que torna a resposta mais complexa do que um simples “sim” ou um “não”. É preciso, portanto, trazer alguns dados à discussão.

Mas antes, clique aqui e saiba mais da decisão de suspender as importações de lácteos do Uruguai!

Apesar de ser o quinto maior produtor de leite do mundo, de acordo com o USDA, o Brasil é, tradicionalmente, importador de lácteos, principalmente de leites em pó.

Nos últimos cinco anos (de setembro de 2013 a setembro de 2017), a balança comercial acumulou saldo negativo de US$1,26 bilhões. Enquanto as cotas de importação de leite em pó argentino limitam as compras a 3,6 mil toneladas ao mês, o mesmo não ocorre para o Uruguai.

Desde 2015, as aquisições de leites em pó uruguaio têm se elevado significativamente e o país se tornou o principal fornecedor do produto ao Brasil, superando a então liderança argentina. De janeiro a setembro de 2017, foram importadas aproximadamente 86,5 mil t de leites em pó, sendo que 54,7% vieram do Uruguai e 36,9% da Argentina.

No entanto, vale destacar que esse volume é 30,5% menor do que o registrado no mesmo período de 2016, por conta do enfraquecimento do consumo no mercado doméstico. Com isso, a participação das importações de lácteos sobre o total ofertado pelo País em 2017 deve ser menor do que os 5% registrados em 2016.

A demanda enfraquecida por lácteos na ponta final da cadeia é, inclusive, o principal fator que vem afetando o preço do leite na fazenda e dos derivados. Devido à perda do poder de compra frente à retração econômica, o consumidor brasileiro diminuiu o consumo de itens menos essenciais à sua dieta, como é o caso da grande maioria dos lácteos.

A volatilidade dos preços do leite acentua um fato característico da cadeia láctea: estar voltada ao mercado interno – ao contrário de outras proteínas, como carnes e ovos, que utilizam o mercado externo como uma espécie de “esponja” para drenar o excesso de oferta e equilibrar os valores no mercado doméstico.

Assim, suspender as importações do Uruguai não deve impulsionar as cotações do leite na fazenda no curto prazo. No entanto, a ação do Ministério não deixa de ser importante, pois reforça que a pressão do setor foi eficiente para colocar o tema e a cadeia do leite, de forma mais ampla, em discussão.

O fato de o Brasil importar lácteos pode não afetar diretamente o preço, mas impacta a dinâmica da cadeia, que precisa ser debatida.

As importações de leites em pó evidenciam um problema maior: os lácteos brasileiros não são tão competitivos quanto os importados, em termos de qualidade e preço.

Barrar as importações de lácteos como estratégia pontual não resolve essas questões, além de ter sérios implicativos políticos e diplomáticos.

O setor precisa de maior planejamento para que ações, tanto na esfera pública quanto na privada, possam convergir para o fortalecimento da relação entre os elos da cadeia.  Somente assim é que resolveremos “a crise do leite” e poderemos passar da condição de importadores para de exportadores.

Adaptado de Sergio De Zen e Natália Grigol, do Cepea/Esalq

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